Há uma censura por todas as casas. Este é o primeiro dia de aula e não quero pensar no que acontece. O zíper da minha calça está travado. Não consigo abrir a porta de casa. Cansei de beber água para passar o tempo, não posso fazer uma corda de lençol, vai chamar a atenção e, mesmo se tivesse a corda, não conseguiria atravessar a janela emperrada. Vou ligar a tevê, fazer algum barulho para distrair os ouvidos. Aqui em casa, assistimos às notícias de oposição ao governo. Gosto de assistir ao comercial de uma criança robusta usando um macacão de nylon rosa e chinelos. Rebola enquanto repete “CredicardCredicardCredicard”. Gostaria de aprender a desenhar esta menina. Contornar o rosto Credicard dela. O sorriso da criança me traz uma esperança enigmática. Não sei por que não entendo muitas coisas, ou se é o entendimento que não consegue me alcançar, não sei desenhar, não sei abrir esta maldita porta, não sei se consigo fazer alguma coisa direito. Olho meu celular desatualizado. Ainda serve para receber ligações e informar as horas. Se as coisas continuarem assim, vou me atrasar e perder a aula. Minha ansiedade revisita a lembrança da publicidade do curso.

Fabricação de pelos pubianos para fins variados: decorar cadáveres, homens com pouco cabelo, entre outras utilidades. Conquiste já sua independência financeira!

Desde o embargo econômico das principais potências do planeta, imposto porque meu país deu asilo político ao assassino do assassino de milhares de pessoas, estamos com dificuldades. Não para obter comida, não passamos fome, nem sofremos com doenças perversas, somos autossuficientes na agricultura e na medicina. Meu problema é que temos dificuldade em obter o supérfluo. Sem futilidades minha vida carece do enigma de desejo e aventura. Era feliz sem pensar na burocracia dos homens. Agora, quem vai me entreter com objetos de plástico e bolsas que prometem salvar o mundo enquanto me alegram?

Algo em mim reconhece as esquinas do que é inútil apenas por se aproximar do corpo. Minha pele se arrepia, um rápido calor toma conta dos olhos, a alegria do desnecessário agarra os sentidos e libera uma eletricidade que estava adormecida na vontade. A seriedade deste país está me matando! O supérfluo sendo racionado! Como vou me expressar?

Minhas lembranças sangram na vontade de comprar e isso dói! Maldito embargo e sua miopia sufocante. Que culpa tenho nesse veredito? Consumi tudo o que pude e agora sou condenada a viver a desatualização! É muito cruel!

Na crise, todos encontram maneiras de escapar dela. Ao menos, de tentar escapar. No mercado paralelo, vendem máquinas de cartão de crédito e débito para cada cidadão não depender do dinheiro que vem da Casa da Moeda daqui. Comprei uma máquina de débito e crédito. Essa é o último modelo, um lançamento. Dos mais modernos. Não precisa de energia elétrica, carrega apenas na luz solar. Com isso, todas as manhãs, saúdo o sol apontando a máquina de cartão de crédito enquanto recarrego. É muito prático. Previne roubos. Não tenho dinheiro para dar, muito menos moedas. A máquina só funciona com minha impressão digital. Não posso perder meus dedos, mas já ouvi dizer que ladrões estão tomando máquinas junto dos dedos das pessoas. Tudo o que queria era poder abrir esta janela, sair daqui até chegar no curso de pelos pubianos. Que escolhi fazer com tremenda liberdade. A futilidade me traz pistas que ensinam o desencontro com hora marcada. Tempo assinalado na fronteira do inútil. Para perder e encontrar entre uma embalagem colorida e outra.

Por esta janela emperrada, dedilho o céu. Uma Ave Maria presa entre os dentes dilata a negação e dá uma súbita vontade de comer um biscoito recheado, mas não qualquer biscoito, e sim o multinacional; de beber refrigerante multinacional; mastigar chiclete multinacional; deitar a cabeça no travesseiro multinacional; admirar as minhas unhas pintadas com um esmalte multinacional e sentir o calor da fartura dos itens multinacionais. Preciso expressar meu self. Quero a calma que vem da razão. Sinto medo. E os presentes de Natal debaixo da árvore? Para onde vão os shopping centers? Meu sonho é conhecer a Lua. Mesmo sabendo que já fincaram bandeira de outra pátria. Talvez precise de visto para conhecer a Lua, mas não me importo, um dia vou para lá.

De tanto usar a força para abrir esta porta, sinto dor no peito. Quero a astúcia que vem do excesso. Mesmo sabendo que o tempo, imune ao silêncio, imune à condenação das mercadorias, imune ao inútil, sem isto, meu corpo não consegue suportar. Minhas unhas já quebraram, não consigo sair de casa, me falta ar, no meu colo cai o embargo econômico. Respiro os últimos instantes da futilidade que me resta.


SALMA SORIA é escritora, poeta e pesquisadora. Autora do livros de contos “Vestindo a roupa ouvindo a máquina”, “Muitas roupas aqui” e de poesia “Formas dissimuladas de dizer bom dia”. Mestranda em Filosofia e Ensino, mora no Rio de Janeiro.

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